segunda-feira, 8 de outubro de 2007

HISTÓRIAS QUE O VÔ VITO CONTAVA...

O meu vozinho Vito


O vô Vito costumava contar e recontar as velhas histórias da nossa família.

Algumas delas, aquelas mais ricas em detalhes, dados e datas, são absolutamente reais e podem ser lembradas como retrato de uma época ou até mesmo como fato histórico. Outras de suas narrativas, principalmente aquelas que envolvem seus ascendentes ingleses lhe foram contadas por terceiros e, portanto, talvez parte da verdade tenha se perdido.

Estas últimas devem, pois, ser encaradas assim como uma espécie de lenda, já que não se pode saber até onde vai a realidade ou onde começa a fantasia.
As histórias que o vô Vito contava são o seu mais caro legado.

Espero que outras pessoas que também tenham escutado suas narrativas possam ajudar, completando dados ou até mesmo contando novas histórias.

É importante notar que, este trabalho foi escrito quando meu avô ainda estava vivo, há muitos anos atrás (início da década de 80), portanto, às vezes faço referências a fatos que sabemos, hoje, totalmente inverídicos.

As histórias das quais me lembro:

... de porque um nobre inglês precisou deixar sua pátria.
... de onde ele veio dar e porque abandonou Assunguí.
... de como seus meninos foram seqüestrados.
... de suas habilidades profissionais e de suas obras.
... de sua ida para Guarapuava.
... de como as terras foram perdidas. (*)
... da união de um inglês e uma descendente de alemães.
... das propriedades de Luiz Manoel Agner.
... de como morre Jorge.
... de como cuidar de nove filhos na ausência do pai.
... de como sem pais, o vô Vito se arrumava para sobreviver.
... das gulodices de um menino.
... do pão sem margarina ou geléia. (*)
... de como o Vô Vito começou a fumar (*)
... de como Víctor conheceu Rosita. (*)
... de como ele reencontrou Rosita.
... dos problemas logo após o casamento
... da vinda para Curitiba.
... das várias mudanças até o estabelecimento definitivo. (*)
... de como se viajava de Curitiba para Guarapuava. (*)
... do tiro no pé. (*)
... da preta que mordeu o dedo. (*)
... do jacaré pescado. (*)
... da lasanha. (*)
... dos primórdios do barreado. (*)

(*) - Histórias das quais só me lembro vagamente e que tentarei narrar em futuro
próximo (quando tiver maiores dados).


... de porquê um nobre inglês precisou deixar sua pátria...

(esta história não passa de lenda, a verdadeira, somente viemos a conhecer recentemente, em nosso contato com a Gwen. A história não tem nada de realidade, mas era a verdade do Vô Vito, portanto fica o registro)

Na Inglaterra do século passado as famílias nobres costumavam possuir extensas áreas que eram destinadas exclusivamente a seu esporte favorito: a caça.

O Sr. Richard Kendrick era, segundo afirmam, um lorde de tradicional família, que morava ao norte da Inglaterra (ao meu avô sempre foi dito que seus ancestrais vieram do norte da Inglaterra e isso sempre foi aceito com fato consumado. Quando recebi, porém, pouco antes de sua morte a resposta de uma minha carta a um senhor de sobrenome Kendrick, dizendo que tinha ascendência escocesa, meu avô, perturbado confessou ser possível os Kendrick’s terem se originado nesse país, localizado ao norte da Inglaterra, a Escócia. Ainda vou tentar descobrir alguma coisa a esse respeito). Ele era casado com D. Julia Kendrick e possuía quatro filhos: Julia, Alice, Jorge e Richard.

Assim como a grande maioria dos homens da época em igual posição social, tinha o Sr. Lorde o hábito da caça. Em certa ocasião, enquanto praticava esse esporte feriu uma lebre dentro de sua propriedade que, se debatendo, no entanto só veio a morrer em terras de um vizinho seu o qual era também seu inimigo político.

O guarda-caças da propriedade ao lado entregou então o animal morto ao seu patrão, que se aproveitando da situação ameaçou processar o lorde por estar caçando em terras que não lhe pertenciam.

O Sr. Richard então, temendo uma situação tão degradante para a sua família e para si próprio, um orgulhoso nobre inglês, abdicou de seus bens, terras e propriedades, pegou seus dois filhos varões e deixando sua esposa e as duas filhas na Inglaterra, partiu rumo a uma nova vida na América do Sul...


... de onde ele veio dar e porque abandonou o Assunguí...

Vieram da Inglaterra o Sr. Richard e seus dois filhos, juntamente com outras famílias de ingleses que se tornariam no decorrer do tempo, tradicionais em Curitiba.

São estas as famílias: Withers, Walter, Haus, Pugsley, Coper, Rodbard (hoje sei, que pelo menos os Rodbard vieram em 1875 e foram alocados em outra colônia, Kittoland), entre outras.

Estas famílias desembarcaram no porto de Santos (não, foi no Rio de Janeiro) provavelmente entre a segunda metade da década de 50 e o início da década 60 do século XIX. (a data mais próxima, hoje podemos dizer, é 1873). Foram elas designadas para a localidade de Assunguí, situada a pouco mais de cem quilômetros ao norte de Curitiba, no município chamado hoje de Cerro Azul.

Após a emancipação do Paraná em 1853, a Princesa Izabel enviou a essa região da Serra do Mar, agrônomos que estudando a fertilidade do solo e as condições do clima e topografia, concluíram que estas terras se prestavam principalmente à cultura do café, da cana-de-açúcar, laranjas e cereais em geral.

O governo imperial mandou então demarcar uma área de mais de 60.000 hectares, que dividiu em 400 lotes, os quais foram entregues aos colonos alemães, ingleses, suíços, franceses e italianos recém chegados da Europa, formando a colônia de Assunguí.

A falta de estradas ligando Assunguí à Capital fez com que os colonos muito sofressem.
Sua produção agrícola apodrecia nos celeiros, pois, não havia como escoá-la. A comunicação entre Assunguí e Curitiba era feita através de uma picada pela qual vinham os colonos com grandes dificuldades tentar vender seus produtos na Capital. Os perus que criavam, por exemplo, (havia também criação de outros animais) eram trazidos em bandos tocados e atraídos por grãos de milho que iam sendo jogados à sua frente.

Estas dificuldades de comunicação foram uma das causas que levaram várias das famílias de colonos a trocarem Assunguí pela Capital da Província. Entre estas famílias estavam os Kendrick’s.

Até hoje a região do Assunguí (Cerro Azul) é uma das mais pobres do estado e até muito recentemente, a estrada para cidade era precaríssima.


... de como os seus meninos foram seqüestrados...

Quando vieram morar em Curitiba, os filhos do Sr. Richard, Richard e Jorge, muito pequenos, despertavam a curiosidade de todos por não falarem outra língua senão o inglês.

Quando saía para trabalhar em suas obras como construtor (habilidade sobre a qual discorro mais demoradamente a seguir), não tinha com quem deixar os meninos e por esta razão os meninos ficavam sozinhos. Certa vez ao voltar para casa não encontrou os filhos. Procurou nas vizinhanças e nada.

Esperou o tempo passar e eles não voltaram para casa. Não queria acreditar, mas seus filhos haviam sido seqüestrados.

Seus esforços eram poucos para descobrir onde se encontravam, porém, um dia quando foi contratado para fazer uma obra adiante de São José dos Pinhais encontrou, por obra da coincidência, os seus meninos.

Não quis saber quem os seqüestrou ou o porquê, tomou um menino em cada mão e os trouxe de volta para Curitiba.


... de suas habilidades profissionais e de suas obras...

Possuía o Sr. Lorde muitos conhecimentos nas áreas de engenharia e mineralogia, acreditando-se que tivesse diploma de curso superior em alguma dessas carreiras. (A Gwen nos conta, recentemente que, na Inglaterra, Richard trabalhava como “brick mason” (ou pedreiro).)

Edificou ele no Paraná varias construções que, no entanto, nunca levaram seu nome (meu avô não soube explicar o porquê). Foi ele o mestre construtor responsável das obras de arte da “Estrada do Mato Grosso “, por exemplo. Esta estrada foi projetada com a finalidade de proteger a fronteira do Brasil na altura de Mato Grosso, de possíveis invasões por parte dos paraguaios.

A Guerra do Paraguai durou de 1865 a 1870, a estrada, porém, nunca chegou além da cidade de Palmeira a cerca de 80 km de Curitiba.

A Estrada do Mato Grosso começava onde hoje fazem esquina a Rua das Flores e a rua Dr. Muricy.

Na época a Rua das Flores acabava nos casarões que desciam a Dr. Muricy.

Estes casarões foram demolidos para dar lugar à estrada que continuava pela Rua Comendador Araújo, seguia o traçado da Av. Batel até cair na estrada que ainda hoje serve para ligar Curitiba a Campo Comprido. De lá se pega a direção da Serra de São Luiz do Purunã, onde ao pé da Serra, se viermos para Curitiba pela estrada atual, devemos pegar à esquerda logo após a bica dos caminhoneiros, antes de um recanto. Na altura da Fazenda Thalia a estrada antiga volta a encontrar a nova; mais adiante se pega à esquerda para dirigir-se a Palmeira onde a estrada finalmente acaba.

Os muros de contenção e os viadutos desta estrada, na altura da Serra de São Luiz do Purunã são de responsabilidade de meu trisavô (??? Não, acho que é tetravô que se diz). Hoje a estrada antiga da Serra ainda é um lugar bastante romântico, onde se pode observar, enquanto se passeia, como as estradas antigas agrediam menos a natureza, numa época em que a velocidade não era coisa importante.

A estradinha na maior parte de sua extensão continua sendo de saibro sendo que em algumas partes, onde se formam atoleiros, foram colocados matacões de pedra do próprio local. Logo quando se entra na estrada antiga, se descermos do carro e entrarmos na mata pelo lado esquerdo vamos encontrar um bebedouro que na época provavelmente servia para dar de beber aos cavalos antes da subida da serra.

A linda ponte sobre o Rio dos Papagaios, na altura de Palmeira, também foi construída por meu trisavôj (???).

Esta ponte que vencia um rio piscoso e cristalino, com cerca de um metro de fundura, mas com panelões profundos onde viviam os lambaris, foi inaugurada por D. Pedro II, quando de sua passagem por aquela região. (aqui há provavelmente um equívoco de meu avô, já que D. Pedro II visitou o Paraná no ano de 1880 e que a ponte, segundo inscrição sobre ela mesma, foi inaugurada no ano de 1876).

A ponte da qual o imperador ficou admirado pela sua solidez, foi construída com pedras de dimensões enormes formando arcadas, segundo o modelo de pontes existentes ao norte da Inglaterra.

A ponte do Rio dos Papagaios foi tombada pelo Governo do Estado do Paraná em 03 de setembro de 1973 (Inscrição Tombo 41-II).

Por essa mesma época fez o Sr. Kendrick varias prospecções a procura de ouro e diamantes na região de Palmeira. (Isto confirma a história da Gwen que afirma que Richard veio para o Brasil em busca de ouro).

O Sr. Richard Kendrick tinha o costume de construir um relógio meridiano em cada uma de suas obras. A ponte sobre o Rio dos Papagaios possuía dois, um em cada cabeceira.

O seu relógio do sol mais conhecido em nossos dias é aquele que está sobre a porta de entrada da “Farmácia Stellfeld “, na Praça Tiradentes. (a data hoje inscrita sobre o relógio é a data da inauguração da farmácia – 1857. O relógio deve ter sido acrescentado a posteriori.)


...de sua ida para Guarapuava...

Terminado o seu trabalho na Estrada do Mato Grosso, pegou o Sr. Richard o rumo que esta deveria ter seguido e vai dar na cidade de Guarapuava.

Compra um pouco além dessa cidade a “Fazenda dos Porcos “, propriedade com cerca de 300 alqueires e nela leva uma vida tranqüila, praticando uma agricultura de subsistência.

Possuía muitas cabeças de gado eqüino e bovino, no entanto não costumava vendê-las. Quando necessitava algo que não possuía em sua fazenda, pegava uma libra e ia comprar na Colônia dos Russos, ali perto.


...da união de um inglês e uma descendente de alemães...

Aos 24 dias do mês de outubro de 1883 casam-se o filho do Sr. Richard Kendrick e de sua esposa Julia Kendrich, o Sr. Jorge Kendrick e a Sra. Francisca Agner. filha do então Major Luiz Manoel Agner e de D. Maria dos Anjos Agner. O fato deu-se na Paróquia de Nossa Senhora da Luz de Curitiba.

O pai da noiva era natural da região de Würtemberg, ao sul da Alemanha. Ao contrário do que muitos pretendem fazer acreditar, dizendo que deserdara D. Chica por ter se casado com Jorge, o Sr. Luiz Manoel (Maneco Padeiro), como era conhecido, recebeu Jorge com muito afeto dentro de sua família.

Por ocasião da Guerra do Paraguai (que unia Brasil, Argentina e Uruguai) lutou como integrante da 1a. Companhia de Cavalaria comandada pelo Tenente José Joaquim Ferreira Júnior.

É desse tempo uma sua cigarreira de tartaruga e prata que ficou em poder de meu avô até sua morte.

Era vontade de meu avô entregar essa cigarreira a um museu paranaense, hoje, infelizmente, não sei onde ela se encontra.

Luiz Manoel participou também da Revolução Federalista. Esta revolta, uma das mais sangrentas de nosso país, teve origem no Rio Grande do Sul onde muitos não estavam contentes com o resultado das eleições convocadas por Marechal Floriano e alastrou-se até o Paraná ameaçando São Paulo.

Os revoltosos tiveram também o apoio da Marinha Brasileira, sediada no Rio de Janeiro e que considerava ilegal o governo de Marechal Floriano e exigia eleições para presidente.

Os chefes dos Maragatos (como eram conhecidos os revoltosos), nunca tiveram, no entanto, unidade de ação e nem ao menos os mesmos objetivos políticos: alguns eram monarquistas, outros adeptos da república e outros como Gumercindo Saraiva eram separatistas (queriam uma nova nação formada pelo Sul do Brasil e o Uruguai). Essa falta de objetivos comuns enfraqueceu os revolucionários que, após muita luta, foram vencidos pelas forças do Marechal Floriano (os Pica-Paus).

Por ocasião da Revolução Federalista (1893-1895), Luiz Manoel Agner, assim como outros estrangeiros organizaram batalhões revolucionários em 1894, e com eles operaram no Paraná contra as forças legalistas que retornaram ao Estado, então ocupado militarmente por Gumercindo Saraiva. Sua atitude foi condenada por muitos que acreditavam que por ser ele estrangeiro, apesar de casado com brasileira, não deveria fazer parte de lutas políticas e agitações revolucionárias do país.

Mais tarde, serenados os ânimos, foi eleito deputado ao congresso legislativo do Estado.


... das propriedades de Luiz Manoel Agner...

Maneco Padeiro era senhor de muitas propriedades que mandou construir na cidade de Curitiba. Entre estas estão: - uma casa, hoje já modificada, à rua São Francisco onde funciona atualmente o Hospital São Francisco; - um sobrado na esquina das ruas Visconde de Nacar e Emiliano Perneta. Esta propriedade, cuja sede resiste até nossos dias, fazia divisa com o terreno onde hoje fica a Telepar e dava fundos a rua Jesuíno Marcondes; - outra de suas propriedades localizava-se na rua Comendador Araújo em frente a Sociedade Thalia. O terreno ia desde ao lado da Igreja Protestante até ao lado da Casa Glaser e seu fundo ia até a rua Emiliano Perneta. A casa já não existe mais. Possuía também uma chácara à rua Saldanha Marinho, onde hoje encontra-se a Clínica Santa Maria.

Maneco Padeiro, que, ainda entre outras coisas é um dos fundadores da "Loja Maçônica do Paraná", faleceu a 10 de janeiro de 1899.

Ainda, com respeito a Luiz Manoel Agner, por ocasião da visita de D.Pedro II a Curitiba, em 01 de junho de 1880, diz o jornal "Dezenove de Dezembro" do dia seguinte:

" DE VOLTA A CAPITAL DA PROVÍNCIA

As 08:00 horas e três quartos, partiu a imperial comitiva para a capital, chegando a colônia russo-alemã, Marienthal as 10:00 horas , suas majestades se dignaram a aceitar o lauto almoço que o povo da Lapa, havia lhes preparado, visitando em seguida alguns lotes da colônia, cujas condições, lhe mereceram as mais solícitas informações.Daí partindo, chegaram a esta cidade os augustos viajantes depois das 24:00 horas. Por um reduzido grupo de cavalheiros, nacionais e alemães, acompanhados do Dr. Chefe da Polícia, com piquete de cavalaria, tendo archotes acesos, foram os imperiais viajantes recebidos a mais de meia légua no lugar Capão Grande, sendo nessa cidade ainda quase toda iluminada, recebido por grande número de pessoas, que aclamações de regozijo, lhes dava as boas vindas. Junto ao Paço, em guarda de honra, com a banda de música, de polícia, fez as devidas continências, ao apearem dos carros, os augustos soberanos, acompanharam também as suas majestades, alguns cavalheiros, que dirigidos pela incansável cidadão Major Luiz Manoel Agner, tomaram em ter que fazer as honras aos nossos soberanos desde sua chegada a esta capital."


Do casamento de Jorge e D.Chica nasceram nove filhos: Anália (Sinhá), Julia, Bertolina, Jorge, Maria Rosa, Maria dos Anjos (Mariinha), Luiz, Victor e Alice. Esta última, porém, o pai não chegou a conhecer.

Jorge manteve sua amizade com alguns dos ingleses que vieram com ele da Inglaterra.

Enquanto morava em Tamandaré fazia com freqüência, viagens com a família para Curitiba. Na volta sempre passava pela casa da família Coper onde lhes era servido o café, antes de seguirem viagem.

Nessas ocasiões, matava as saudades de falar a língua natal, mas só o fazia, por consideração, quando por perto só se encontrassem pessoas que pudessem entender o que falavam ou então afastavam-se no jardim onde pudessem ficar a sós.


... de como morre Jorge...

Durante uma briga de bar, Jorge recebeu alguns ferimentos a facão, sendo que um deles foi bastante profundo, na altura do nariz. Desmaia e é abandonado na rua tido como morto, somente permanecendo perto de si seu cachorro de nome Soldado. Ao voltar a si, Jorge pega o lenço que usava no pescoço e o amarra em torno da cabeça, segurando seu queixo com um nó sobre a cabeça. Cambaleando se dirige a casa de amigos que finalmente o levaram até sua casa.

Após três meses de convalescença, quando já estava quase bom do ferimento, mas ainda bastante debilitado, resolve capinar sua horta, quando percebe uma leve garoa. D.Chica o chama. Já era tarde, no entanto, pois o corpo de Jorge, suado em função do trabalho, recebe a garoa gelada. Seu organismo, muito fraco, não resiste e pega uma pneumonia da qual pouco tempo depois veio a falecer. Isto ocorreu no ano de 1902. Tinha já oito filhos e sua mulher esperava o nono que nasceu um mês após sua morte. A menina recebe o nome de Alice, numa homenagem que Jorge sempre quis fazer à sua irmã que ficara na Inglaterra.


... de como cuidar de nove filhos na ausência do pai ...

Após a morte de Jorge, o Sr. Richard, seu pai, propõe a D. Chica que vá, juntamente com os filhos morar junto a ele em Guarapuava, pois desta forma não teria problemas de ordem econômica.

D. Chica, porém, acreditando ser muito dura a vida no interior para uma pessoa de sua educação e não querendo viver à custa do sogro não aceita.

O Sr. Richard traz então de Guarapuava 50 cavalos que deveriam ajudar a custear a educação de seus netos. D. Chica aceita de bom grado.

Em outra ocasião, quando Nego e seu cunhado Morais foram visitar o Sr. Richard em Guarapuava ganharam dois lindos animais de montaria e trouxeram de presente para D. Chica mais 50 cavalos que foram sendo vendidos conforme a necessidade o mandava.

Além da ajuda do sogro, D. Chica contava também com o aluguel da propriedade da rua São Francisco, doada a ela por seu pai antes de ter morrido. (a casa ainda existe. Funciona, hoje, como funerária).

Ela, que continuava morando em Tamandaré, aluga a propriedade de Curitiba por 25 mil réis.

Quando necessitava de alguma quantia maior para ocasiões especiais (o casamento de uma de suas filhas, por exemplo) o locatário lhe emprestava a soma necessária em troca de alguns meses de aluguel adiantado.

Em uma dessas ocasiões, quando necessitava 150 mil réis e não encontrou o locatário em casa, aceitou o dinheiro oferecido como empréstimo por uma de suas irmãs, a qual a faz assinar um recibo.

Sua irmã, segundo o acerto receberia durante algum tempo o aluguel da propriedade da rua São Francisco. Transcorrido esse tempo, D. Chica vai ter com o locatário para receber seu aluguel. Qual não foi sua a surpresa: o locatário lhe apresenta o recibo de compra da casa.

Certa ocasião, no entanto, necessitando de quantia mais volumosa (150 mil réis), vende a propriedade a uma de suas irmãs. (hoje, relendo, não consigo decifrar o que quis dizer à época).

No ano de 1908 falece D. Chica.


... de como, sem pais, o vô Vito se arrumava para sobreviver ...

Com a morte de D. Chica ficaram seus filhos menores sob a guarda dos mais velhos que já eram, então, casados. Victor com apenas nove anos ficou com Julia e foi com esta morar em outros Estados como o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Ele voltou ao Paraná somente em 1913. Tinha quatorze anos e trabalhava como engraxate, carregador de malas na estação, pintor de paredes... o que aparecesse que lhe proporcionasse alguns trocados.

Costumava também trabalhar em casa de parentes e na época que pintava a casa de sua tia Nhanhazinha, foi buscar, juntamente com seu primo Eduardo Withers, as cestas de mantimentos que eram mandadas de Paranaguá todas as quartas-feiras e sábados. Foram os dois juntos até a estação e voltaram com as duas pesadas cestas. Ao voltarem ...[2] (pena, não sei... acho que aqui entra a história do pão sem manteiga ou geléia que alguém lhe serviu... não sei...).


... das gulodices de um menino ...

Da época em que morava com tia Julia há duas histórias que lembram as gulodices de vô Vito.

O vô Vito tinha verdadeira loucura por melado. Quem já comeu sabe que uma colher desse doce colocada em um pires e misturada com farinha de mandioca basta para nos deixar empalagados. O vô Vito, em certa ocasião, tanto incomodou e insistiu e esperneou por querer melado que a tia Júlia, cansada, encheu um prato fundo até ao máximo de melado e deu para o vô, permanecendo ao seu lado e obrigando-o a raspar o prato.

O vô Vito o fez e acho que por algum tempo, ao menos, não quis nem ouvir falar em melado.

No entanto até seus últimos dias ele sempre tinha um potinho desse doce em casa e nunca deixava de oferecer um pouco aos netos.

Outra história lhe causou um grande problema. Ao encontrar no armário uma lata de soda cáustica achou parecida com açúcar; pegou uma colher bem cheia e engoliu direto. A soda estrangulou-lhe o esôfago e esse problema carregaria para sempre, tendo de se cuidar ao comer, pois, com freqüência engasgava-se, causando-lhe imenso sofrimento.


... de como ele reencontrou Rosita ...

Em dezembro do ano de 1926 foi o sargento Victor Agner Kendrick designado para a cidade de Palmeira.

Era ele na época uma rapagão muito disputado entre as mocinhas em idade de casamento.

Alugou um quarto de pensão e passou a freqüentar a barbearia da cidade.

Por essa ocasião era o chefe do clube dos Operários de Palmeira o Sr. Felipe Gomes Damasceno. O Sr. Felipe era proveniente de Passo Fundo no Rio Grande do Sul. Veio morar na Lapa quando da Guerra dos Farrapos (1835/45)(??).

Mudando-se em seguida para Palmeira. Ele possuía três filhas: Helena, Rosa Izabel e Lydia. Helena, quando da chegada de Victor a Palmeira, havia acabado de casar e tinha partido com seu marido Antônio Cassou e sua irmã Rosita, passar uns dias em Porto Amazonas. Quando Rosita voltou a sua cidade, no dia 30, encontrou suas amigas alvoroçadas e o motivo era o sargentinho que havia chegado. Nair chegou mesmo a dizer que o estava namorando e convidou Rosita para acompanhá-la até a barbearia onde certamente encontrariam o tão disputado moço. Rosita de fora da barbearia não conseguir reparar no rapaz, mas Victor notou-a imediatamente.

No dia 31 de dezembro haveria uma churrascada na colônia dos franceses e o Sr. Felipe convidou Victor a participar. Victor não deixou de comparecer e lá passou a tarde a conversar com Rosita.

Nos dias que se passaram Victor sentiu-se ainda mais aprisionado por Rosita. Soube por outras pessoas da chegada na cidade de outro rapaz que viera pedir a mão de sua escolhida em casamento. Não havia tempo a perder. No dia 15 de janeiro de 1927 pediu a mão de Rosita a seu pai, antes que qualquer outro o fizesse.

Não queria festa de casamento e não tinha muito a oferecer, mas convenceu o futuro sogro de que quem ama é feliz mesmo debaixo de uma ponte. Seriam pobres, mas, o importante era que permanecessem juntos. O Sr. Felipe impressionou-se com a filosofia do rapaz e entregou-lhe sua filha. Victor mandou fazer as alianças no dentista da cidade e marcaram o noivado para o dia 02 de fevereiro, dia do aniversário do Sr. Felipe. A preocupação passou a ser então, os preparativos para a comemoração do noivado. Resolveram por um almoço, mas não estavam muito seguros da escolha já que acreditavam que Victor não era de muito comer. Assim pensavam, pois, Rosita e Lydia sabiam o que ele comia na pensão: um pão, um copo de café fraco (ele sempre gostou de café fortíssimo), um bife pequeno e um ovo frito. Só depois do almoço de noivado é que compreenderam que ele, muito exigente no que lhe era servido à mesa, não conseguia comer o que lhe era oferecido na pensão. Ao contrário do que pensavam a princípio, era um excelente garfo.

Seu quarto de pensão era freqüentemente bisbilhotado, principalmente por Lydia. Esta, no entanto, encontrava tudo muito bem organizado e limpo. O seu colchão, por exemplo, o acompanhava por todas as cidades que ia. Era um espécie de saco vazio que ele mandava encher de feno em cada cidade que fosse dormir.

Corria tudo bem até que Victor foi destacado para a cidade de Tibagi. Mas era difícil sair da cidade!!! Estava noivo!

O caminho entre as duas cidades era difícil: de Palmeira a Ponta Grossa teria de pegar o trem e de lá até Tibagi precisava pegar a diligência ou ir a cavalo.

Apelando, conseguiu sua permanência em Palmeira, com o comandante da polícia, Sr. Clotário Portugal.

O capitão da cidade, no entanto, talvez por ter pretendido um casamento de Victor com sua filha, estava dificultando as coisas e Victor para não complicar mais resolveu que deveriam casar logo. O casamento foi marcado para o dia 12 de fevereiro de 1927. Rosita tinha então 16 anos.


... dos problemas logo após o casamento ...

Victor e Rosita vieram para Curitiba logo após se casarem. Ao chegarem já encontraram os primeiros problemas. Victor foi preso. O motivo não se sabe, talvez algum problema referindo-se a sua transferência. Antes de ir para a cadeia, no entanto, levou Rosita para a casa de sua tia Nhanhazinha e avisou sua sogra para que viesse buscar Rosita. Victor saiu da prisão dia 27. Antes de ir para Palmeira foi visitar D. Conchita, uma benzedeira e vidente, sua conhecida que comunicou-lhe que sua esposa já estava grávida e que o bebê era uma menina. Victor foi para Palmeira, pegou sua jovem esposa e vieram morar em Curitiba. Julinha, a filha do casal, nasce no dia 12 de novembro (dois dias antes de completar nove meses de seu casamento). Os comentários que esse nascimento e principalmente o fato de dizerem que Victor a havia abandonado logo após o casamento, magoaram muito a Rosita e fizeram que esta nunca mais quisesse voltar para Palmeira.

Quando de passagem por esta cidade a caminho de outros lugares nunca quis nem ao menos descer do ônibus, sendo Victor obrigado a levar-lhe o lanche dentro da condução.


... da vinda para Curitiba ...

Vindo para Curitiba, Victor comprou uma casa para os lados do Parolim, a qual foi, no entanto, obrigado a vender, pois, ela era muito longe e em dias de chuva a lama era tanta que em certos dias era impossível almoçar em casa.

Alugou uma casa à Rua Rockfeller entre as ruas Silva Jardim e Iguaçu. Foi nessa casa que nasceu Julinha.

Logo depois se mudou para uma chácara à Rua Santo Antônio. Nessa casa foi seu fiador o Sr. Secretário da Fazenda. O aluguel era descontado em folha porem o proprietário queria recebê-lo diretamente de Victor. A situação tornou-se tal que nove meses depois já estava se mudando em Curitiba.
a casa da Rua Santo Antonio, hoje

Foi para a Rua Santo Antônio 19. Desta para a rua Santo Antônio 43 e desta novamente para a rua Santo Antônio 19. Esta casa ficava praticamente em frente ao quartel. Nesta época possuíam uma cabrita de nome Branquinha que passeava pelos campos ao redor e entrava no quartel livremente. Era desta cabrita o leite que alimentou Julinha.

5 comentários:

flor do campo disse...

Adorei sua historia, pois fique a par da minha histora tambem, estou construindo a minha arvore, não tnha varios dados ,encontrei na sua narrativa, sou filha de Luiz Agner meu avo,Theofilo Agner,naoconsigo achar meu bisa, nos filhos de Luiz Manoel Agner naõ tem o nome de meu avo casado c/ escolastica de Oliveira Agner, e o nome do meu pai n~consta na lista do Theofilo Agner, vc poderia me ajudar? abraços!!!

flor do campo disse...

Adorei sua historia, pois fique a par da minha histora tambem, estou construindo a minha arvore, não tnha varios dados ,encontrei na sua narrativa, sou filha de Luiz Agner meu avo,Theofilo Agner,naoconsigo achar meu bisa, nos filhos de Luiz Manoel Agner naõ tem o nome de meu avo casado c/ escolastica de Oliveira Agner, e o nome do meu pai n~consta na lista do Theofilo Agner, vc poderia me ajudar? abraços!!!

inglez67 disse...

Muito interessante. Vocês não poderiam esclarecer-me aonde é que encontro maiores informações a respeito da Colônia Kitto. Será que temos alguém da área de história trabalhando neste assunto? Algum arquivo público aí na região que poderia guardar alguma coisa, principalmente, das famílias que a compuseram? Atenciosamente,
José Inglêz da Silva.

solange rosalina bragatto agner silva disse...

Sou Anita Agner, filha de Gedeão Padeiro Agner, neta de teófilo padeiro agner. Gostaria de saber da arvore genealogica da familia e mais informações

dinai lemes disse...

OI ADOREI VER A HISTÓRIA DA MINHA FAMÍLA ONDE TAMBÉM ESTOU INSERIDO.SOU NETO DE LUIZ AGNER KENDRICK ERA IRMÃO DE TIO VITO QUAL EU CONHECI.GOSTARIA DE TEM CONTATO COM ALGUNS PARENTES QUE FAZEM PARTE DESSA FAMILIA.HOJE ESTOU RESIDINDO EM ALMIRANTE TAMANDARE. MEU EMAIL.ZORIELFIUZA@HOTMAIL.COM. MEU NOME ZORIEL KENDRICK FIUZA .FILHO DE ANALIA KENDRICK FIUZA FILHA DE LUIZ KENDRICK. LEMBRO AINDA DA TIA ALICE ROSA E TIO VITO . OBRIGADO